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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Neymar, drogas, comidas e coisas do tipo...


Centro Comercial Ventura Plaza - o que, no Brasil,
chamaríamos de Shopping Center.
Eles não gostam do Neymar. Quando digo que não gostam significa um sentimento parecido com ódio. Os motivos para isso são a) Neymar joga no Barcelona, rival do Real Madrid, onde atua o maior ídolo atual colombiano, James Rodríguez; b) o jogador brasileiro iniciou uma briga no último jogo entre as seleções; c) segundo os colombianos, Neymar forjou ter sido machucado por Zuñiga na Copa do Mundo do ano passado. Se ter uma vértebra quebrada é “forjar”, não quero imaginar o que é “não-forjar”.
Quando ando na rua, algumas pessoas reconhecem meu rosto das propagandas feitas do curso de inglês. Acham que sou americano e me tratam bem. Quando digo que sou brasileiro, a primeira coisa que ouço é (e não uma só vez, foram várias): “Encostar em você machuca?” ou “O que joelhada te lembra?”. Essa é a imagem que Neymar transmite.
Mas não é só isso. Hoje pedi ajuda para uma moça chamada Daniele. Ela trabalha vendendo pollo - frango - e estava sem fazer nada, de boa olhando o movimento. Procurava um lugar onde pudesse cambiar dólar para peso – mais um motivo para pensarem que sou americano. Enquanto íamos de casa de câmbio em casa de câmbio, pesquisando o melhor preço, ela me disse que estuda psicologia. Eu falei que estou terminando jornalismo no Brasil. Logo a cara dela se fechou e eu perguntei o porquê.
– O jornalismo de vocês faz parecer que aqui só tem droga, máfia e narcotráfico. Eu amo meu país – ela disse – e não gosto de ver essas notícias ruins.
Fiquei em silêncio enquanto a ouvia. Não iria replicar, dizendo que o que eles pensam dos brasileiros também está errado. No final, Daniele ainda soltou uma frase assim: as mulheres aqui são mais bonitas.
Não declarei nada.
(...)
Para não contaminar outras pessoas, os que estão doentes
usam máscaras para evitar a proliferação do vírus.
            Com a loucura do clima, ficar gripado não é difícil. A cidade é rodeada por montanhas frias. Mas em Cúcuta, o calor é enlouquecedor. Choveu hoje de manhã. Refrescou o clima.
            Muitas pessoas andam de máscara na rua. Fiquei encucado com isso. Perguntei a uma pessoa na rua o porquê. Disse que usam para não espalhar contaminação. Só as pessoas gripadas usam as máscaras (tipo de dentistas). Fiquei preocupado com surtos de H1N1, mas nenhum noticiário aqui alarmou uma epidemia ou casos de gripe suína. Uma simples gripe já é motivo para sair de máscara.
(...)
            Eu nunca havia ouvido falar de plátano. Até que um dia fizeram para mim na hora do almoço. Parece-se com uma versão gigante e da banana, mas o sabor é completamente diferente. Confesso que não consegui comer metade. Aqui eles comem batata com a casca. No começo eu estranhei, mas agora estou começando a me acostumar com as coisas aqui.
Plátano tem grande quantidade de fósforo, potássio,
fibra e proteína.
            Mas eu lhes prometi cozinhar algo divino um dia. Se chama Ouro de Tolo. Tive dificuldade de encontrar bacon para fazer o O.T. Imaginei que bacon fosse bacon em qualquer lugar. Mas eles chamam de “tocino” ou “tocineta”.
            Ansioso para ver a cara deles ao se lambuzarem com geleia, manteiga de amendoim e bacon.
(...)
            Fui à livraria do Shopping (Centro Comercial). Logo na vitrine há um cartaz escrito “Los más vendidos”. Fiquei curioso para saber o que os cucutenhos gostam de ler. Decepcionei-me ao ver Paulo Coelho lá.
(...)
Vocabulário daqui:
Pelado(a): menino (a)
Tuerto: caolho
Buseta: Micro ônibus
Buseteiro: Motorista de micro ônibus
Escoba: Vassoura (aprendi de uma forma engraçada)
Chevere: legal
Broma: Piada
Jugo: Suco




domingo, 5 de julho de 2015

Ida à Pamplona

Algumas jovens tocavam lira na praça. O som me recordava o badalar dos mensageiros dos ventos na casa da minha avó. Uma brisa reconfortante soprava por entre as folhas das árvores e então sentei, balancei-me da mesma forma que fazia quando era criança e deixei os pensamentos devanearem.
Estávamos (eu e meus host siblings, Jonathan Josué e Marta Raquel) nos preparando para ir à Pamplona: uma competição de fanfarras aconteceria e eles tocariam.
Pamplona é uma pequena cidade situada a 75 quilômetros de Cúcuta e há muita história naquela lugar. Fica na cordilheira oriental dos Andes Colombianos a uma altitude de 2200 metros. Simon Bolívar a chamava de "Ciudad Patriota", pois foi a primeira da Revolução Neogranadina a proclamar a independência.
Íamos de micro ônibus. Pagamos, cada um, 20.000 pesos (25 reais) e fomos nos aventurar na estrada. Mesmo tendo pedágio, a estrada é horrível, bem parecida com a rodovia para Petrópolis-RJ. Como brasileiro, agradeci o fato da grana investida em pedágios realmente ser convertida em rodovias boas.
Havia 16 outros participantes da fanfarra no micro-ônibus– para falar a verdade, só havia fanfarristas lá. Uma televisão funcionava. O motorista – boseteiro – colocou um dvd com uma seleção de músicas para vermos e escutarmos. Quis rir quando ouvi “Xibom Bombom” e “Ai se eu te pego”. Surpreso quando ouvi uma banda de mulheres chamada Las Ketchup cantando “Aserehe” da banda Rouge. As muitas curvas me davam tonteira e lamentei não ter tomado Dramin.
Demoramos 3 horas para chegar a Pamplona. O ônibus parava toda hora para deixar ambulantes entrarem e venderem churros e tangerinas. O clima esfriava. É interessante o quanto um clima pode mudar em uma distância curta.
As pessoas tentavam falar comigo mas o espanhol daqui é diferente. Eles falam mais rápido do que o normal e são como os de Frutal: não completam as palavras. Pensavam que eu era americano, pois souberam que estou na Colômbia para ensinar inglês e até me felicitaram pelo Dia da Independência – 4 de julho.
Almoçamos Pollo Broaster - Frango frito. Aqui não usam talheres. Comemos tudo com as mãos e o próprio restaurante oferece luvas de plástico. Tomamos 7 Up - já havia me esquecido de como era o sabor. 
As nuvens estavam baixas quando as bandas começaram a desfilar nas ruas do centro. Os habitantes da cidade estavam nas calçadas filmando e assistindo às marchas. Em um café/bar irlandês, vários argentinos assistiam à final da Copa América. Encontrei um pouco de conforto lá – finalmente havia encontrado pessoas que falam inglês; finalmente podia entender e ser entendido. Mas fui-me logo. Não podia me perder dos meus amigos.
A banda de Ex-Alunos se preparando para tocar
Já se passava das 5 da tarde quando todas as bandas foram para um Coliseu - quadra - onde iriam saber quem era a melhor da região. O frio começava a ser cortante, mas eu não reclamava. O calor de Cúcuta me fizera clamar por um pouco de frio.
Em torno de 7 bandas tocaram. Eu queria ver o jogo, mas era quase impossível sair do Coliseu. Mais de 5000 pessoas encheram o lugar que não era tão grande assim.
Do microfone, o narrador do evento disse que o Chile havia sido campeão. Durante cinco minutos, todos gritaram, comemorando a derrota da Argentina e isso me fez lembrar do Brasil.
O Coliseu onde as bandas se apresentaram
Ao sairmos do Coliseu – a banda dos meus amigos não ganhou – estávamos famintos, mas ninguém queria parar na estrada para comer. Ansiávamos por chegar em casa e sabíamos que o caminho de volta daria enjoo.
O bosetero pôs um filme para vermos. Algo relacionado ao tsunami de 2004 na Ásia. Demoramos menos na volta: 2 horas. Ao chegar a Cúcuta, era possível ver os rostos que expressavam enjoo e dor de cabeça. Descobri que não era o único a ter esse tipo de problema.
Era possível sentir o calor de Cúcuta, mas estava feliz por chegar em casa. Comemos arepas e terminamos o dia.



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Começando a conhecer a cidade

 Dia 2


Manhã

Às 6 horas estava de pé, morrendo de fome. A última coisa que havia comido eram os nachos em Bogotá. Esperei todos se levantarem - o que não demorou a acontecer. Estava ansioso pelo café da manhã. Mas aqui, antes do café, eles fazem uma espécie de culto em jejum. Fizemos uma meditação no livro de II Coríntios e, depois de meia hora, assentamo-nos à mesa para comer arepas. 

Arepa é uma comida típica da região. É algo que se parece com pães asmos e pode-se comer com queijo e ovos. Admito que consigo viver comendo arepas para sempre. 
Fui trabalhar com eles. O lugar onde trabalham se parece com O Sukão de Frutal. Fui a lugares que me lembravam o Ver-o-Peso para comprar frutas conhecidas e não conhecidas. Detalhe: eles chamam caqui de tomate de arbol (tomate de árvore). 
O trânsito é bem intenso. Mas há algo bem europeu aqui: a partir do momento em que pisas na faixa de pedestres, os carros param. 
Andar tanto pela cidade me deu fome e esperava ansiosamente pelo almoço.

Marbeisy Torres e eu na Filarmónica de Cucuta.
O instrumento em minhas mãos é o Ukulele.

Tarde

Fui almoçar tarde. Quase às 15 horas. No Brasil já eram quase 17 horas. Depois comecei a preparar algumas coisas que vou usar para as aulas que vou dar. O meu projeto começa na segunda-feira. Eles foram bons comigo me dando uma semana para me acostumar com o fuso horário e com o ambiente. 

Recebi uma mensagem de Marbeisy Torres, uma amiga daqui da Colômbia que havia conhecido por Facebook antes de vir à Cucuta. Ela me chamou para ir conhecer La Filarmónica, tipo um conservatório onde há aulas de piano, violoncelo, entre outros.

Fim de Tarde/Noite

Tiple, instrumento harmônico típico
da Colômbia
Saí com minha amiga e um amigo dela, Abel. Ele estuda música na faculdade e é especialista em tuba. 

Ela me mostrou alguns pontos culturais da cidade e caminhamos conversando sobre Gabriel García Marques e música. 
Depois de uma boa pernada eu estava parecendo a versão asmática do Corcunda de Notredame.
Chegamos à Filarmónica e logo fui apresentado ao professor/diretor da escola. Ele ficou animado ao saber que sou brasileiro e natural do Rio de Janeiro. Pediu para que eu ensinasse uma música em português que ele queria tocar. Não conhecia a música, mas ensinei-lhe a pronúncia das palavras. 
Subi as escadas e entrei na sala do piano. Passei um bom tempo lá, tocando. Depois me deram um ukulele e cantamos Somewhere Over the Rainbown. 
Conheci Isabella - o nome do violoncelo da escola rsrs. 
Ao descer as escadas, o professor/diretor me mostrou instrumentos típicos da colômbia. El tiple y el requinto. Para mim, são como a viola sertaneja.
O professor tocou para mim alguns ritmos colombianos, principalmente o Torbellino. Eu disse que para mim, Torbellino era conhecido como Modão. 
"Modão?", ele perguntou.
"Sim", respondi, "modão de viola"
Depois, despedi-me da minha amiga e das pessoas da escola e fui para a igreja onde ia ensaiar com os músicos. 
Tocamos Jesús Adrian Romero, Marcos Witt, Hillsong e até rolou Thalles Roberto e David Quinlan. Eles são fãs dos solos do Roger Franco.

Janta

Mais arepas e boas risadas ao tentar ensiná-los a falar inglês. Riam de falsos cognatos e fomos dormir com os rostos doloridos de tanto rir.

A Viagem

Dia 1

Os Andes Peruanos, logo depois do Lago Titicaca
O voo de São Paulo a Lima foi o pior que já tive. Tanta turbulência. O avião subia e descia, como se estivesse andando em uma rodovia esburacada, tipo a BR-364.
Pelo menos a vista era bela. O lago Titicaca, na fronteira entre Bolívia e Peru, tão azul quanto um oceano, banhava os arredores das montanhas dos Andes.

Chegou o lanche do voo. Uma mistura de repolho, batata doce frita e queijo. Em um outro recipiente, dois quadradinhos de mamão e melão.

Vocês já devem imaginar o resultado de turbulência e repolho. O cheiro no avião era insuportável. A fila para o banheiro, enorme. Quando pousamos em Lima, agradeci a Deus como nunca antes.

Em Lima

Nunca mais reclamo do Brasil. No aeroporto de Lima, não existe bebedouro. Tive de comprar água em um café na ala internacional. O wifi era aberto por somente 10 minutos e com sinal pior que o da CTBC. Nunca imaginei que fizesse frio no Peru. Mas fazia. Muito. O clima bem nublado.
Fiquei pouco tempo lá, pois meu avião para Bogotá adiantou-se e outra história começou.

Para Bogotá

Na minha fila havia um argentino me zoando e uma mexicana me dando cotoveladas. Mas, mais uma vez, a bela vista dos Andes amenizou um pouco o sofrimento. A vista do Yerupaja, o segundo maior pico do Peru, era estonteante.
No lanche, só havia cerveja e mais uma vez o repolho. Perguntei se não havia outra coisa e a aeromoça me disse: "suco de pêssego e um pedaço de pão." Aceitei, orando para que não houvesse turbulência demais nesse voo.
Depois de duas horas e meia, pousamos em Bogotá. Ficamos presos no avião por meia hora, esperando liberação para descer. Foi a meia hora mais longa da minha vida.

Em Bogotá

Havia wifi! E livre! Mas não havia água. Estava faminto e encontrei um restaurante relativamente barato. Comi nachos e tacos com limonada. Arrependi-me depois.
Fiquei 8 horas naquele aeroporto, tremendo com o frio. Nunca imaginei que fosse frio lá. Deitei-me no chão e dormi, mas de meia em meia hora acordava, ouvindo um grupo de pessoas rindo de mim, dormindo com o chapéu na cara. O banheiro da sala 6 não aguentava mais me ver. O frio me dava vontade de fazer xixi toda hora.
Em uma das vezes que dormi, sonhei que a Shakira passava. Ao acordar, decepcionei-me. Às 10 da noite, finalmente, entrei no voo para Cucuta.

Voo para Cucuta

Selfie de chegada ao Aeroporto Camilo Dazzo
O avião de voo nacional era melhor que os do dois internacionais. Eu podia escolher o filme que queria assistir e terminei How I Met your Mother. Não havia ninguém ao meu lado também. E não havia repolho - o mais importante. Mas a turbulência foi pior.
Dessa vez, o céu parecia a Belém-Brasília na época em que ia de carro para Ribeirão Preto. Quase caímos em Bucaramanga - sem brincadeira. A minha sorte é que havia tomado dois comprimidos de Dramin - caso contrário, haveria vomitado.
Cheguei vivo em Cucuta. Graças a Deus. Fui bem recebido por um grupo de colombianos e duas mexicanas.
Como diz Jean Valjean: "Vamos ver o que este novo mundo reservou para mim".

(Da esquerda para direita) Ana (México), Jonathan Torrado,
Eu, Josué Murcia, Yolanda, Carla e Jhuly